Dr. Vicente Ghilardi fala sobre a opção pela maternidade independente

Especialista em tratamento de reprodução assistida, o dr. Vicente Ghilardi tem recebido no seu consultório um número crescente de casais com problemas de infertilidade. Atualmente, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de 60 milhões de pessoas no mundo encontram dificuldades na concepção. Porém, entre os seus pacientes, começa a despontar um outro público, com demandas diferentes: cerca de 10% dos que o procuram são mulheres decididas pela maternidade independente e casais homoafetivos (tanto mulheres quanto homens) atrás das técnicas de reprodução assistida para poderem ter seus filhos.

Nessa entrevista exclusiva para o Maternidade Independente,SA Swiss Replica Watches  dr. Vicente nos fala sobre reprodução assistida, causas da infertilidade, prevenção da infertilidade, congelamento de óvulos e embriões, limitações da idade na gravidez, menopausa precoce e, claro, sobre essa opção de um número crescente de mulheres por ter filhos “sem pai”, recorrendo a um banco de sêmen.

Leia, abaixo, a entrevista, concedida a Bettina Boklis e Paula Quental:

Pela sua observação, houve aumento no número de mulheres que procuram a maternidade independente, que já chegam ao consultório com essa escolha?

Com certeza. A gente vem atendendo muitas mulheres em busca de tratamento em função da limitação da idade. A idade da mulher é um fator muito importante e agravante do estado de fertilidade. Por causa do número de óvulos, qualidade de óvulos, tudo isso. Então existe um aumento dessa procura pelo tratamento por mulheres que ainda não são casadas e que querem resolver essa situação da maternidade o quanto antes.

Geralmente, com que idade elas buscam o tratamento?

O grande problema é que a questão da idade da mulher, embora já esteja sendo bastante divulgada, informada, ainda não é totalmente esclarecida. Então muitas mulheres ainda pensam que “ah, quando eu quiser engravidar eu consigo!”. Mas não é bem assim. Só para você ter uma ideia, acima de 40 anos de idade, para você ter uma gravidez natural e também com tratamento, a chance de engravidar é em torno de 5% a 10%. É muito difícil.

Inclusive com tratamento?

Sim, inclusive com tratamento. Se você fizer uma fertilização in vitro vai ter entre 15% e 20%, 23% no máximo, de chance. Não é fácil engravidar, é difícil. Então, o que a gente tem observado, e eu trabalho há quase 20 anos na área, é que a média de idade da mulher que faz o tratamento aumentou muito nos últimos anos. Em 2005, a média era 33 anos de idade. Casadas, ou solteiras. Agora é de 38, 39 anos. Então a mulher está buscando resolver isso muito mais tarde e a chance de engravidar fica menor. Aos 33 anos a chance de engravidar é de 50%. Com 38, 39 não chega a 25%, 30%.

Entre as mulheres que o procuram para fazer tratamento para engravidar está crescendo o número daquelas que buscam a maternidade independente?

A média é em torno de 10% das que me procuram. A tendência é aumentar. Mas tem que ver quais são os objetivos, porque, assim como a mulher independente e solteira pode fazer o tratamento para ter filhos, segundo norma do Conselho Federal de Medicina, também está escrito lá que esse direito se estende aos casais homoafetivos.

No caso desses casais, quando são dois homens, usamos o sêmen de um deles, e às vezes dos dois, em uma barriga de aluguel. Agora, quanto ao casal homoafetivo feminino, há casais que usam óvulos das duas, as duas são estimuladas ao mesmo tempo. Às vezes uma dá o óvulo, a outra dá a barriga. O homoafetivo é variado. Uma boa parte da procura de banco de sêmen e óvulo se dá por casais homoafetivos. Isso ajudou o CFM a contemplar, numa norma, também esses casais, além das solteiras. Antes não havia nenhuma regra sobre isso.

No caso de casais de mulheres, elas buscam o tratamento mais cedo?

No caso de duas mulheres, geralmente uma é mais nova. Mas varia também. O fator idade facilita um pouco em termos de resultado de gravidez. Mas esses casos ainda não são muito frequentes, não há muita procura. Ainda.

E quanto à questão do congelamento de óvulos? Muitas mulheres abaixo dos 30 já estão começando a ficar atentas a essa questão…

Surgiu um estudo há 3, 4 anos que tentava ver com relação à qualidade do óvulo qual seria o período melhor, de melhor resultado, para a mulher ter filho. E a conclusão foi que o melhor período é dos 27 aos 30 anos. Apesar de se ter uma boa condição até os 35 anos de gravidez. A gente sabe, hoje, que a partir dos 30 já começa a ter uma curva pra baixo, de qualidade e quantidade do óvulo. A reserva ovariana começa a entrar em curva descendente a partir dos 30. Então, qual o melhor período para ela congelar o óvulo? Quanto mais rápido, melhor. Se for antes dos 30, melhor ainda.

Há muita mistificação em cima do tratamento para captura de óvulos, porque há aplicação de hormônios. As pessoas dizem que a mulher vai engordar e ter complicações. O que é verdade e mentira?

São dois pontos em relação a isso. Quando se fala em hormônios, a mulher tem medo de quê? De engordar e ter câncer. Existem estudos que acompanharam por 10, 15 anos, pacientes que fizeram fertilização in vitro e que comprovam que as mulheres que se submetem aos tratamentos com hormônios não têm mais chance do que as outras de desenvolver câncer. Se comparado ao restante da população, não há incidência maior de nenhum tipo de câncer. A mulher pode até ter câncer, mas já teria mesmo.

Quanto ao ganho de peso, ele é um ganho temporário, porque você não ganha massa, e não é toda mulher que ganha. O que existe no tratamento com hormônio é um ganho transitório de peso porque o corpo retém líquido. Muitas vezes a mulher que faz o tratamento já tem tendência a reter líquido. E o que mais tem nesse tratamento? Ela quer engravidar, ela está ansiosa. Um casal às vezes chega com um histórico de 10 anos de infertilidade, imagina o grau de ansiedade dessa mulher. Muitas vezes essa ansiedade é o que causa o ganho de peso.

Ainda tem a questão que congelar óvulos é uma vez só, confere? Você faz o tratamento, tira os óvulos, guarda…

É uma vez só, mas depende do número. Depende da resposta, se tiver 15 a 18 óvulos, já tá bom. É o que gostaríamos de trabalhar. Mas normalmente a média é 10. Antigamente nem dava para congelar óvulo, estourava tudo, não tinha sobrevida.

Antigamente, quando?

Antes de 1997, 1998. Em 1999, 2000 surgiu a vitrificação, que é uma técnica ultrarrápida de congelamento e mudou o cenário. Porque, com ela, o óvulo consegue sobreviver. O grande problema para congelar o óvulo é que ele tem uma área, uma superfície, muito grande, além de muita substância dentro, muito citoplasma. Quando está congelando, há formação de cristais dentro do óvulo, o que aumenta a pressão interna e aí pode romper. Com a vitrificação rápida, em um minuto e meio ele sai da temperatura ambiente para -196ºC. A sobrevida ao descongelamento com essa técnica é boa, de 79%, 78%. Mas ao descongelamento. Depois você fecunda, fertiliza e vê quais estão bem (vingam).

O ideal seria trabalhar de 6 a 8 óvulos por tentativa. Vamos supor que a paciente faça até 3 tentativas, 6 a 8 óvulos por tentativa. Ela vai ter uma chance boa de engravidar. Se uma mulher de 30, numa primeira punção, tiver 18, 20 óvulos – não é muito frequente isso, mas pode ter – aí ela já consegue numa tentativa guardar toda a sua reserva.

A mulher pode usar esses óvulos até quanto tempo depois?

No caso de embrião, há relatos na literatura médica de que 21 anos depois uma paciente descongelou e teve o filho. Filho gêmeo – nasceu uma criança e 21 anos depois nasceu a outra.

O melhor é congelar óvulo ou embrião? Imagino que a mulher de 30 não vai querer congelar embrião porque ela ainda tem o sonho de encontrar o cara certo e ter um filho com ele…

Para essa mulher é o óvulo. O que a gente fala quando a mulher mais jovem vem aqui e pergunta: “ah, doutor, pego o sêmen de doador agora e congelo o embrião ou o congelo óvulo?” Nesse caso, é melhor óvulo, porque ela vai começar um relacionamento com um homem, vai casar e querer ter filho com ele. Aí já tem óvulo, vai querer sêmen dele. Fica difícil até uma aceitação por parte do parceiro no futuro se ela congelar embrião. Agora, em termos de resultado, tecnicamente falando, o que é melhor? Ainda é melhor congelar embrião, porque a gente tem um resultado melhor, mais fiel, de gravidez. Quase igual, mas ainda é melhor o embrião.

Congelar o embrião pode ser uma solução interessante para quem já tem o relacionamento, mas não quer ter o filho agora?

Tem também casais que estão juntos, só que para um deles é um segundo relacionamento, por exemplo, do homem. E ele não quer mais ter filhos e ela quer. Tem uma discussão dentro de casa e ela quer fazer com sêmen de doador, quer seguir a linha dela, seguir a vida dela.

E as mulheres têm procurado congelar óvulo antes dos 30? Já se disseminou essa informação de que é a melhor idade para congelar óvulos? Elas já têm essa noção?

Ainda não têm, só uma minoria. Dificilmente você encontra uma mulher de 30 anos que chega aqui dizendo: sei que a idade é importante, quero congelar. Dificilmente.

As mulheres não costumam planejar a maternidade com tanta antecedência. Imagino que é difícil para uma mulher de menos de 30 anos, ou de 30, começando a evoluir na carreira, investir em um tratamento que custa R$ 10 mil…É essa a faixa de preço, certo?

Sim, mais ou menos isso.

Incluindo os remédios, certo? Esse tratamento dura um mês e ela deve fazer o seguinte raciocínio: por que vou gastar agora R$ 10 mil para uma coisa lá para frente, que não sei se vai dar certo?

Sim, ela pensa: estou bem, sou saudável, vou à academia. Não fumo, não bebo. Por que vou pensar nisso agora?

Em geral, há aquele pensamento mágico de que “a ciência hoje ajuda”. Mas é um pouco ilusão, não?

Com certeza, é isso mesmo.

Então, como convencer essa mulher e que o melhor período para ela planejar a maternidade, se ela está sem parceiro à vista, e até congelar seus óvulos é em torno dos 30 anos?

Acho que é só com informação. Temos dados americanos, estatísticas, sobre o sucesso dos tratamentos quando feitos nessa idade. O grande problema é que a informação não é tão eficaz a ponto de despertar nessas mulheres a iniciativa de fazer o tratamento. A infertilidade não existia antigamente, quando a mulher já estava programada para casar com 17, 18 anos e logo em seguida ter filhos. Vinham os filhos e ela não menstruava mais, amamentava, engravidava, não tinha endometriose, engravidava.

Então a infertilidade é uma situação, vamos dizer, da vida moderna. Porque a mulher começa a querer ter independência, não fica mais dependente do homem, quer também trabalhar, ter sua vida, e com isso faz o quê? Estuda mais, se prepara mais e vai adiando, vai adiando, vai ter endometriose, gravidez difícil… Como ela vai conseguir conviver com isso? Tem agora 29, mas quer só com 40, 37. E existe um agravante: hoje em dia elas se queixam de que está mais difícil engatar um relacionamento

E sobre a menopausa precoce? Como a mulher pode saber quando vai ter a menopausa para ajudar nessa decisão de congelar óvulos, embriões?

Para fazer uma análise de reserva ovariana, você não consegue totalmente estabelecer isso. Tem uma série de exames hoje, mais de 20, para ver como está a reserva ovariana. Ver o quanto de óvulo que essa mulher tem ainda. E o fato de existirem mais de 20 significa o quê? Que nenhum é fidedigno. A gente ainda não consegue saber: olha, você vai menstruar até 40 anos. Não dá para saber. Dá para ter uma ideia por esses exames, mas não cravar. É muito variado. Você pega o exame AMH, de hormônio antimulleriano, que é um dos melhores marcadores para avaliar a reserva ovariana. Ele pode estar indicando uma faixa de baixíssima reserva. Aí você faz uma fertilização e descobre que tem só 6 óvulos.

Existe a dosagem de FSH, o hormônio folículo estimulante, que é também marcador. Se a dosagem estiver alta, significa que a reserva não é boa. Esse hormônio atua na hipófise, no cérebro, e age bombardeando o ovário para produzir óvulos. Se tem óvulo, produz estradiol e avisa o cérebro para parar de produzir FSH. Se está alto, quer dizer que o ovário está parado, indica que não tem mais reserva. Não dá para responder a essa pergunta: até quando vai ter óvulo? Vai ter óvulo até os 40, 41?

Então você não consegue saber aos 30 qual o tamanho da sua reserva ovariana?

Você consegue ter uma previsão que sua reserva não é tão boa.

Que exames essa mulher de 30 deve fazer para saber sobre sua reserva ovariana?

Há uma lista de testes de reserva ovariana que ela pode fazer. Outra coisa interessante é a parte de prevenção. Você está falando de maternidade independente, não de mulher que tem problema de infertilidade. Mas aí é que está o problema: a mulher independente nem sempre está infértil, ela só quer resolver logo para não entrar no quadro da infertilidade. São duas coisas diferentes. No ponto da infertilidade, além dos testes de reserva ovariana, no caso da infertilidade, eu colocaria a questão da prevenção.

O que você chama de prevenção nesse caso?

Há uma campanha da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM – American Society for Reproductive Medicine) que chama a atenção para a prevenção de infertilidade. Uma das questões é o sexo seguro, porque a infecção genital causada por sexo sem proteção pode chegar a obstruir as trompas. A mulher fica infértil. A campanha americana chama a atenção para quatro fatores para pensar na fertilidade: cigarro, peso, sexo e idade. No caso do cigarro, uma pesquisa mostra que a cotinina, o maior metabólico da nicotina, a maior toxina do cigarro, é encontrada em todos os folículos da mulher fumante. Uma mulher muito gorda ou muito magra também vai ter problemas para ovular e até menstruar.

No quesito sexo, a campanha fala: “Quer engravidar, use camisinha?”. A mulher que não tem parceiros, mas tem relacionamentos, tem que se prevenir. Tem que se prevenir, porque se ela pega uma doença que vai para a trompa, ela pode ter dificuldade de engravidar.

Quer dizer que as mulheres devem usar camisinha não só para prevenir DSTs e gravidez, mas também infertilidade?

Sim. E, por fim, o fator idade. Um estudo de 1992 mostra que quando uma menina nasce ela tem 2,5 milhões folículos – que são as células possíveis de se tornarem óvulos. Quando começa menstruar, só restam 400 mil, ela perdeu 2 milhões sem usar. E todo o mês ela perde 1000 folículos para ovular um. Por volta dos 35 anos, ela vai ter cerca de 25 mil folículos. Outra coisa é a qualidade. Os cromossomos têm que estar alinhados, o par certinho. Num óvulo de mais idade eles são totalmente desalinhados, o que aumenta a possibilidade de alteração cromossômica e dificulta engravidar.